Se não for por rendimento e empregabilidade, quais seriam outras maneiras de escolher uma carreira?
Quem tem filho no ensino médio, prestes a escolher um curso
universitário, preocupa-se com o bem dele no futuro e tenta orientar o
jovem, confuso com o enorme leque de escolhas que se amplia dia a dia.
Os pais apontam as profissões que eles consideram ter mais chances de
colocação e de remuneração. Mas, num mundo que prioriza o consumo e,
portanto, o ganho financeiro, isso limita demasiadamente a cabeça de
muitos jovens.
O que eles, os estudantes, pensam ser importante na hora da escolha do
curso universitário? Fiquei com essa pergunta depois de ouvir um grupo
de adolescentes que fará vestibular neste ou no próximo ano.
Conversei com muitos outros na mesma situação e também com adultos que
convivem com eles: pais, professores e outros profissionais. Vale a pena
olhar para essa questão com cuidado e delicadeza, porque somos nós que,
direta ou indiretamente, influenciamos o modo como pensam, talvez sem
ideia de como isso possa se reverter contra eles próprios.
Sabemos qual ponto eles priorizam: a viabilidade profissional, pois
entendem ser a possibilidade de trabalho que se reverte em benefícios
financeiros. Ganhar dinheiro: é isso o que lhes interessa. É
compreensível, já que a função básica do trabalho é oferecer a
subsistência necessária na vida. Mas eles querem muito, muito dinheiro.
Os adolescentes manifestam interesses em todas as áreas de conhecimento:
exatas, biológicas, humanidades e artes. Mas aí começa a confusão
provocada pela nossa escolha social de priorizar, desesperadamente, o
consumo.
Eles afirmam que, como os pais não concordam com as escolhas que parecem
não render um bom dinheiro no futuro próximo, rapidamente eles abdicam
do que é de seu interesse e gosto para se render às indicações da
família. Adivinhe quais as profissões sugeridas pelos pais: engenharia,
medicina, direito, administração e outras que já fizeram sucesso décadas
atrás.
Perguntei se os jovens achavam que essas profissões lhes dariam garantia
de boa remuneração e trabalho. Resposta quase unânime: sim! Em que
mundo eles vivem? Ou melhor, em que mundo os fazemos acreditar que
vivem, caro leitor?
Quando questionados sobre qual é o segundo ponto mais importante a ser
considerado, logo após o de ganhar dinheiro, não tiveram como dar
resposta. Para a maioria deles, não há plano B, segunda alternativa,
outro critério ou possibilidade. É só essa, e ponto final.
Insisti: se não for por rendimento e empregabilidade, quais seriam
outras maneiras de escolher uma carreira? Sugeri a eles o
autoconhecimento e perguntei o que achavam disso. Encontrei espanto,
surpresa e desconhecimento total sobre como isso poderia colaborar na
escolha que farão. É como se eles não estivessem em jogo nessa escolha!
Dá para entender por que há tanta desistência nos primeiros anos das
graduações, por que há tantas dúvidas na hora da escolha, por que há
tanta dificuldade em terminar a faculdade e por que é pequeno o número
de jovens que acreditam que conseguirão concretizar seus sonhos e
projetos?
Precisamos encontrar maneiras de ajudar o adolescente a substituir o
centro dessa questão: no lugar da busca financeira, é ele, o estudante e
futuro profissional, quem deve assumir essa importância. Folha, 21.10.2014.
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